Atrasos!

Atrasos!

Todo mundo sabe que o horário de verão não tem lá muitos amigos. Normalmente são as crianças que gostam dele. Digo, as crianças que estudam a tarde. Lembro-me que eu adorava a chegada do novo horário porque era sinônimo de brincar até mais tarde fora de casa. Era deliciosa a sensação de maioridade quando eu podia voltar pra case depois das sete e meia da noite.

Mas, acredito eu, da mesma forma que a criança cresce e deixa pra trás a inocência, ela deixa também os amores pelo horário de verão. Principalmente quando vira gente grande e precisa madrugar para ir para o trabalho ou para a faculdade. Acordar às cinco e meia da manhã é um sacrifício daqueles, e sair no escuro dá a sensação de que acordou mais cedo do que devia.

Hoje, em particular, estou fazendo uma careta mais feia para esse horário malandrinho. Dessa vez o saci do relógio me escolheu como vítima de suas traquinagens. Porque, afirmo eu, “horário de verão” e “esqueci de ligar o meu despertador” definitivamente não ficam bem na mesma frase.

Às cinco e quarenta da manhã, o horário normal me deu um leve cutucão no ombro esquerdo dizendo “Hei, você não acha que já dormiu demais?”, e com aquela espreguiçada gostosa eu cá pensei com meus botões “que delícia, meu despertador ainda não tocou”. Enquanto confortavelmente me ajeitava na cama para prosseguir com meus bons sonhos percebi que tinha alguma coisa de anormal ali naquele quarto, mais especificamente na janela. Raios de sol adentrando pelas gretas. Péra um pouco, de madrugada não tem sol!

Eis que no susto eu percebo que não eram as cinco e quarenta em que eu costumo me levantar, mas seis e quarenta em que eu já deveria estar chegando ao trabalho! Bendito! Num pulo só com as calças jeans já no meio das pernas, a toalha de rosto em uma mão e o resto da roupa em outra, ainda sem entender bem o que estava acontecendo, me pego pensando “o que é que eu faço primeiro?”.

A ordem certa das coisas eu não me lembro qual foi, mas em exatos dez minutos já estava eu descendo a Rua dos Goitacazes num pique só, enquanto o danadinho ria debochado com seu cachimbo na boca e me dizia “te peguei!”. Segurando o pouco fôlego que me restava, continuei correndo rumo ao ponto de ônibus, murmurando… “Ainda vai ter troco!”

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